
Por Marcus Vinicius Wiebusch Müller — Economista-Chefe, Ascenda Wealth
Há formatos de evento que eu não sou muito fã. O auditório com 300 cadeiras, o palestrante no palco e o coffee break com biscoito amanteigado. Esse modelo estilo show produz mais aplausos que conexões. Talvez seja viés meu, mas esse tipo de evento parece mais massagem no ego do que valor de verdade.
No dia 30 de março de 2025, a Ascenda Wealth reuniu um grupo exclusivo de empresários e decisores em Porto Alegre para um encontro diferente.
Eram menos de 30 pessoas. E era exatamente o que a gente queria.
O Rio Grande do Sul atravessou, em 2024, uma das piores tragédias climáticas da história do estado. As enchentes de maio deixaram uma ferida visível. Vidas foram perdidas, infraestrutura destruída, cadeias produtivas interrompidas. Só que essa tragédia levantou algumas questões que poucos estão calculando corretamente: a cicatriz no comportamento dos empresários gaúchos, na alocação do crédito regional e na velocidade de recuperação dos setores mais afetados.
No painel que ministrei sobre o cenário econômico gaúcho, o ponto de partida foi justamente esse: separar o ruído da reconstrução do sinal real da economia estadual.
O agronegócio gaúcho, que responde por cerca de 15% do PIB do estado segundo dados da FEE-RS, mostrou resiliência. A soja e o trigo seguiram ciclos e a pecuária minimamente se ajustou. Só que o problema mais latente ficou evidente na cadeia de valor secundária de transporte, logística, processamento. Para o empresário que opera nesses setores, ignorar essa assimetria é um erro estratégico de primeira ordem.
O ponto que mais gerou debate na sala foi este: a recuperação gaúcha não é linear, não é homogênea e não poderemos contar com a infraestrutura estatal. Empresas que dependem de infraestrutura física — especialmente no Vale do Taquari e na Serra — ainda operam com capacidade comprometida. Empresas de tecnologia, serviços e saúde, por outro lado, absorveram o choque com mais velocidade e algumas, paradoxalmente, cresceram, mas o tema central foi: Como que o empresário gaúcho tomará decisões de investimento e expansão? Com base em indicadores estaduais agregados? Neste caso ele está, em muitos casos, olhando para o espelho retrovisor. A minha provocação inclusive foi a de tentar vencer alguns padrões culturais de barreira que os empresários do Estado possuem para que eles se tornem mais aberto a novas conexões.

O segundo painel foi sobre o Brasil.
A taxa Selic chegou a 2025 num patamar que o mercado não via há anos. O Banco Central, pressionado por uma combinação de fiscal frouxo e câmbio depreciado, não teve outra saída senão apertar. O resultado é o que se esperava: crédito mais caro, consumo mais contido, e uma pressão silenciosa sobre as margens de empresas que operam alavancadas.
O tema central do painel foi a trajetória da dívida pública. O Brasil encerrou 2024 com a dívida bruta do governo geral próxima a 90% do PIB, segundo o Banco Central. Esse número tem implicações que vão muito além do debate acadêmico: ele condiciona o piso de juros estrutural da economia brasileira por anos. Enquanto o risco fiscal não for atacado com seriedade, a taxa de juros real continuará sendo uma das mais altas do planeta.
Quis mostrar para os participantes que o custo de capital no Brasil não é algo fora da curva. É estrutural. Planejar com base na expectativa de juros caindo rapidamente para um dígito é um cenário que o mercado de opções não está precificando, e que a história recente não recomenda.
Abordamos também as eleições de 2026 — e aqui fiz questão de uma distinção que muitos analistas apressados não fazem. Eleição não é o problema. O problema é o que vem antes: o impulso fiscal pré-eleitoral que invariavelmente pressiona despesas, expande crédito subsidiado e empurra para frente decisões difíceis. O empresário que entende esse ciclo pode se posicionar. O que ignora, paga o preço depois.
O quadro internacional completou a análise: com a guerra na Ucrânia ainda sem resolução clara, com a China em desaceleração estrutural e com os Estados Unidos redefinindo sua política comercial sob pressão protecionista, o ambiente externo oferece menos colchão do que em ciclos anteriores. O Brasil exportador se beneficia de alguns desses movimentos, como o das commodities. Mas o Brasil endividado paga a conta do dólar alto e do capital global mais seletivo.
Entre os painéis, algo igualmente importante acontecia: conversas que não teriam acontecido em outro ambiente.
O protocolo de networking que adotamos é simples e funcional. Na entrada, cada convidado preencheu um card com dois campos: o que procuro e o que ofereço. Com essas informações, fazemos o matchmaking — conectamos pessoas cujos interesses e competências se complementam, de forma estruturada, sem deixar a serendipidade como único mecanismo.
O objetivo declarado era que cada participante saísse com pelo menos duas conexões úteis. Não dois cartões de visita. Duas conexões reais.
Julgue você mesmo se faz diferença: em um evento convencional de 200 pessoas, quantas conversas você tem que realmente importam? Em uma sala de 22 empresários selecionados, com interesses mapeados e conexões facilitadas, a equação muda completamente.
O ambiente foi fantástico e ajudou muito. Fizemos uma degustação guiada de um charuto Jamm Robusto, um Mojito bem feito e uma dose de Union Oak criam um tipo diferente de conversa.
O que fica
Eventos assim não existem para preencher agenda. Existem para mudar o frame com que empresários tomam decisões.
O cenário econômico — gaúcho e brasileiro — não é simples. Nunca foi. Mas a complexidade não é desculpa para paralisia nem para apostas cegas. É exatamente para navegar essa complexidade que existe a gestão patrimonial séria: não para prever o futuro, mas para construir carteiras e estratégias que sobrevivem a ele independentemente de qual versão se materializar.
Se você é empresário e saiu desse encontro com mais perguntas do que respostas, é um bom sinal. Perguntas melhores produzem decisões melhores.
O próximo encontro está sendo planejado. O formato, o mesmo. O convite, restrito.
Marcus Vinicius Wiebusch Müller é economista-chefe da Ascenda Wealth Multi-Family Office.
Referências e fontes consultadas: