
"Eis que o deus, bifronte, ofereceu aos meus olhos suas duas faces. Fiquei aterrado, senti os cabelos se erguerem de pavor, um frio súbito me gelou o peito. —Aprende, sem temor, o que buscas, poeta laborioso dos dias, e retém as minhas palavras, disse o deus segurando um bastão na mão direita e uma chave na esquerda. — Os antigos me chamavam de Caos, pois eu sou o primeiro. Tudo o que vês em qualquer parte, céu, mar, nuvens, terra, por minha mão se fecha e se abre. Só a mim cabe a guarda do vasto universo, e o direito de girar seu eixo é meu. Quando envio a paz para fora dos meus salões tranquilos, ela caminha livre pelas estradas; mas de sangue e morte se encheria o mundo inteiro, se não fossem minhas barras a manter trancadas as guerras."
Esta é uma tradução livre do poema Calendário, de Ovídio, famoso poeta romano do século I a.C. Jano, o deus de duas faces, é capaz de olhar para o futuro e para o passado ao mesmo tempo. É o deus de quem está no limiar, na fronteira, entre um cômodo e outro, nem dentro nem fora. Do início e do fim. E julho, que fecha um semestre e abre o próximo, é exatamente isso. O mundo, que parece parado neste limite, está perdido ao olhar para dois lados ao mesmo tempo. Entre passado e futuro, entre um lado e outro.
O mês inteiro se organiza nessa fronteira. Entre guerra e paz, com um cessar-fogo no Oriente Médio que mantem ameaças. Trump e o presidente iraniano Pezeshkian assinaram, em 17 de junho, um memorando para encerrar a guerra. Depois da maiorinterrupção de oferta que o mercado de petróleo já viu (Agência Internacionalde Energia), o “fator guerra” no preço do barril se dissolveu quase por inteiro. O Brent voltou para a casa dos 70 dólares, e o WTI furou os setenta pela primeira vez desde a véspera do conflito, lá em fevereiro. A tempestadeque dominava as manchetes recuou tão rápido quanto chegou.
No campo monetário parece que o "hawk" que Trump escolheu, pode ser quem subirá os juros, depois de Powell tê-los cortado. Ironias dignas de divindades. Warsh sinalizou menos forward guidance: menos mão do banco central guiando expectativas, mais mercado definindo preços. Uma nova era do Federal Reserve, onde9 dos 18 membros projetam alta ainda em 2026. A inflação esperada para o fim doano lá, saltou para 3,6%, contra 2,7% em março. O índice de preços ao consumidor de maio veio a 4,2%, o mais alto desde 2023, empurrado pela energia. Enquanto o Fed pensa em subir, o Copom corta. Em 17/jun, tivemos o terceiro corte seguido em nossa taxa de juros fazendo a Selic bater em 14,25%, apesardisso a sobreposição das expectativas de juros para o longo e médio prazo jánão veem espaço para quedas muito significativas, o que mantêm os juros altosespremendo empreendimentos e o preço do dinheiro pelo Brasil. A inflação demaio, medida pelo IPCA e divulgada em junho, subiu 0,58% no mês e acumulou4,72% em doze meses, desacelerou frente aos 0,67% de abril, mas voltou aultrapassar o teto da meta do Banco Central, que é de 4,50%. O que puxou oíndice foi sobretudo a alimentação. No câmbio, o movimento foi na direçãocontrária ao que víamos há alguns meses. O dólar subiu 3,78% em junho e fechoua R$ 5,16, ante R$ 5,03 em maio. O real forte que o carry sustentava começou aceder no momento exato em que as duas faces dos bancos centrais se afastaram. Acurva de juros mostrou o mesmo desconforto, e com mais clareza. Os títulosprefixados curtos aguentaram bem o mês: o Tesouro Prefixado 2029 recuou 0,02%,praticamente de lado. Já os títulos longos sofreram mais com essa precificação.O Tesouro IPCA+ 2050 chegou a perder 8% de preço no mês, e o IPCA+ 2040 caiuperto de 4,8%. Quando o preço de um título longo cai assim, é porque a taxa queum título novo paga subiu. Quando essa taxa sobe, significa que o mercado estáexigindo mais prêmio para emprestar ao governo por prazos longos, ou seja, orisco é maior. Essa desconfiança tem endereço conhecido: o fiscal, a política ea distância até outubro. O Ibovespa, no meio disso, andou de lado, sem forçapara subir nem razão para cair.
A face que olha para a frente não vê paz assinada e cumprida. Nos templos dedicados a Jano, na Roma antiga, os portões ficavam abertos em tempos de guerra e fechados em tempos de paz. O que observamos no mundo hoje é um portão semiaberto. Os próprios analistas do mercado de energia avisam que o preço comprou o melhor cenário depressa demais. O tráfego por Hormuz não se normalizada noite para o dia, as seguradoras de carga só devem voltar ao estreito daqui meses, e o próprio Irã fez questão de deixar no ar que pretende manter alguma mão sobre aquela passagem. Houve, aliás, novas trocas de ataque no fim de junho, com a trégua ainda tremendo.
Os números da virada do semestre não deram alívio. A dívida bruta subiu além do esperado em maio, ultrapassando 81% do PIB. O déficit primário veio pior que a projeção. A geração de emprego formal decepcionou, bem abaixo do que o mercado aguardava. E o Ibovespa, que havia tocado sua máxima histórica perto dos 192mil pontos em fevereiro, recuou para a região dos 172 mil ao fechar o semestre, com o investidor tirando risco da mesa antes de saber para onde a bola vai.
Some-se a isso o calendário político. O Brasil caminha para outubro e para uma eleição presidencial, e o mercado já começa a precificar o que enxerga adiante. As pesquisas de meados do ano apontam vantagem do atual governo, o que boa parte dos investidores traduz como continuidade de uma política fiscal mais frouxa. Não me cabe, nesta carta, torcer por um lado ou por outro. Cabe-me apenas ler oque o preço dos ativos já embutiu. E o que ele embutiu, por enquanto, é cautela. O país inteiro parece aquele estádio no instante que antecede o pênalti, dividido, tenso.
É tentador, diante desse retrato, sentir que o mundo desabou de um lado só para desabar do outro. Passou a guerra lá fora, chegou a conta fiscal aqui dentro. Mas volte um instante ao deus da abertura e repare no que ele faz. Jano não escolhe uma das faces. Ele olha para as duas ao mesmo tempo e não se apavora com nenhuma, porque enxergar duas direções contraditórias sem perder a calma é, precisamente, o ofício dele. Jano é o caos primordial que um dia assumiu forma e que carrega, nas duas faces, a memória de que toda ordem é provisória, de que a paz mora a um rangido de distância da guerra. Essa é a imagem do que fazemos nesta casa.
Porque o nosso método também olha para vários lados de uma vez sem se desesperar e se recusa a confundir um deles com o todo. Avaliamos o risco de mercado por várias dimensões que não se repetem umas às outras, os indicadores macroeconômicos, a ação dos preços, o humor dos investidores e a valoração dos ativos.
Na prática, para as carteiras que cuidamos, significa constância, que continua sendo o nosso dogma quando o ambiente fica confuso (e ele vai ficar confuso).Quando estamos construindo (ou consumindo) patrimônio estamos expostos. Ponto. Porém quando há exposição, portanto, ela precisa vir calibrada por perfil e por horizonte, sem que a gente se torne refém de uma velha promessa de mudança estrutural que o Brasil faz e desfaz a cada ciclo. O mundo é o mundo desde a Roma antiga (e antes).
Nada disso, veja bem, é uma aposta na direção que o mundo vai tomar. É o exato oposto de uma aposta. É a construção de um patrimônio que não precisa acertar a manchete de amanhã para atravessar o ano em pé. O Fed pode subir os juros. O Copom pode ter de interromper os cortes no meio do caminho. O portão de Hormuz pode voltar a ranger. A eleição pode surpreender para qualquer um dos lados. O seu plano foi desenhado, desde a primeira linha, para não depender de qual dessas faces vai se mexer primeiro.
Esseé o serviço que prestamos. Ele se parece menos com uma aposta ou uma previsãofajuta e mais com uma campanha de guerra. O papel da Ascenda não é apagar adualidade do mundo, porque a dualidade é a matéria-prima da humanidade. Nossopapel é impedir que essa dualidade escorra para dentro da sua vida em forma deansiedade. Boa parte do retorno de longo prazo não nasce do ativo brilhantecomprado no minuto exato, nasce de virtudes silenciosas, permanecer no planoquando o plano é testado, evitar a decisão tomada no susto, rebalancear comdisciplina, respeitar o horizonte que foi combinado. É um processo que protegeo patrimônio e, junto com ele, uma coisa que raramente aparece nos relatórios,o seu sono.
Jano surgiu diante do poeta amedrontado e, antes de explicar seja o que fosse, disse a ele: aprende, sem temor. É o que eu peço a você neste limiar de meio de ano. Não sabemos se o portão do Oriente Médio torna a se abrir, se o Fed sobe, se a nossa eleição de outubro acalma ou agita a curva de juros. Sabemos como estar posicionados para cada um desses caminhos, e essa é uma forma muito mais sólida de tranquilidade do que a falsa certeza que ninguém honesto consegue vender. As duas faces do mês olham para lados opostos. Cabe a nós olhar para as duas ao mesmo tempo, com serenidade, para que você não precise virar o pescoço a cada notícia que pisca na tela.
Seguimos, como em todo mês, comprometidos com aquilo que o cliente mais procura no meio de um noticiário que vive em estado de alerta permanente: tranquilidade, confiança e previsibilidade, sustentadas por método.
MarcusV. S. Müller
Economista-chefe da Ascenda Wealth