Carta Mensal de Junho de 2026 - Ascenda Wealth

Thiago Coutinho, CFP®
Thiago Coutinho, CFP®
June 2026
11 min

Maio testou o investidor. A estratégia testou a carteira.

Quem já construiu patrimônio sabe que o problema raramente é a falta de informação. O problema é o excesso de estímulos.

Um dia, o petróleo cai com expectativa de acordo. No outro, sobe com uma nova ameaça. A bolsa americana avança como se nada pudesse abalar a narrativa de crescimento. A bolsa brasileira cai como se todo risco tivesse decidido aparecer ao mesmo tempo. O dólar volta a incomodar. Os juros longos lembram que o dinheiro continua caro. E, no meio disso tudo, o investidor tenta responder à pergunta errada: “o que vai acontecer agora?”

A pergunta mais importante é outra: minha estratégia está preparada para mais de um cenário?

Maio foi dominado por quatro forças principais.

A primeira foi a geopolítica. A guerra entre Estados Unidos e Irã seguiu como eixo central do mercado, principalmente por seu impacto sobre petróleo, inflação global e juros. O Brent já não está nas máximas, como vimos em Abril, mas o preço ainda incomoda bastante.

A segunda foi a força de Wall Street. Mesmo com petróleo alto e Fed (banco central americano) mais duro, o S&P 500 subiu 5,15% no mês, apoiado especialmente por tecnologia, inteligência artificial e resultados corporativos acima do esperado. O movimento foi forte, mas também deixou o mercado americano mais sensível a qualquer decepção em juros, inflação ou lucros.

A terceira foi o estresse no Brasil. O Ibovespa caiu 7,22% em maio e encerrou o mês aos 173.787,49 pontos, no pior desempenho mensal desde fevereiro de 2023. O dólar também subiu no mês, refletindo saída de capital estrangeiro e a piora de percepção de risco por aqui.

E a última foi a leitura mais complexa sobre juros. Nos Estados Unidos, o Fed passou a conviver com uma inflação mais pressionada por energia, reduzindo o espaço para cortes e levando parte do mercado a discutir até uma alta adicional caso a inflação persistisse. No Brasil, o PIB do 1º trimestre cresceu 1,1%, mostrando resiliência da atividade, mas também dificultando uma queda mais rápida da Selic.

O grande eixo global de maio foi o petróleo.

O mercado passou maio inteiro alternando entre dois cenários. Em alguns momentos, prevaleceu a expectativa de cessar-fogo, reabertura gradual de rotas e redução do risco de ruptura no fornecimento global de energia. Em outros, bastava uma declaração mais dura, um ataque ou uma exigência diplomática incompatível para o prêmio de risco voltar.

O petróleo caiu em relação ao pico, mas não voltou ao seu normal. Enquanto energia permanecer pressionada, o impacto aparece em inflação, transporte, custos industriais, expectativas de juros e nos ativos de risco. Em termos simples: petróleo caro reduz a margem de conforto dos bancos centrais.

Nos Estados Unidos, essa combinação deixou o Fed em posição mais difícil. A preocupação com o risco de o choque de energia se transformar em inflação mais persistente, trouxe uma aposta de uma trajetória de juros menos benigna.  

Mesmo assim, Wall Street teve um mês muito forte. O S&P 500 avançou 5,15% e a bolsa americana seguiu sustentada por tecnologia, inteligência artificial e expectativa de crescimento de lucros. O ponto de atenção é que esse tipo de alta exige muito do futuro: quando os preços sobem com força, qualquer frustração em inflação, payroll (criação de empregos), taxa dos títulos públicos ou resultados pode gerar correções mais rápidas.

A leitura da Ascenda é que o mercado americano segue estruturalmente relevante, mas menos tolerante a erro. O investidor não deve confundir qualidade de empresas e altas persistentes com ausência de risco.

Brasil: O barato que saiu caro.

O Brasil viveu um maio bem diferente dos Estados Unidos.

Enquanto Wall Street subiu, o Ibovespa caiu 7,22% e encerrou o mês aos 173.787 pontos. A queda foi uma combinação incômoda de saída de estrangeiros, ruído fiscal, aumento da sensibilidade eleitoral, dólar mais pressionado e dúvidas sobre a profundidade do ciclo de queda da Selic.  

O paradoxo é que a economia brasileira não veio fraca. Pelo contrário. O PIB do primeiro trimestre cresceu 1,1%, com expansão em agropecuária, indústria, serviços, consumo das famílias e investimento.  

Em outro contexto, isso seria lido apenas como boa notícia. Em maio, a leitura foi mais ambígua. Uma economia resiliente ajuda lucros, emprego e arrecadação. Mas, quando a inflação ainda preocupa e o petróleo está alto, atividade forte também reduz a pressa do Banco Central para cortar juros.

O Copom havia reduzido a Selic para 14,50% ao ano em abril, mas o ambiente de maio reforçou a percepção de que o ciclo de cortes poderia ser mais gradual e dependente do cenário externo.  

Além disso, o fiscal e a política voltaram a pesar. A proximidade do ciclo eleitoral de 2026 aumenta a sensibilidade do mercado a qualquer sinal de deterioração de gastos, medidas de curto prazo ou conflito institucional. A proposta dos Estados Unidos de uma tarifa de 25% sobre parte das importações brasileiras, formalizada no início de junho, também reforçou a percepção de que riscos comerciais e diplomáticos podem entrar na conta dos ativos locais.  

A bolsa brasileira ficou mais barata em maio. Mas barato não significa simples.

Desempenho dos mercados

Nossa visão

Não acreditamos que o investidor precise reagir a cada manchete. Aliás, reforçamos insistentemente para que ele não faça isso.

Acreditamos que ele precisa saber exatamente por que cada parte da carteira existe.

E esse mês de Maio reforçou cinco pontos centrais para nós.

Primeiro: liquidez continua sendo proteção. Não é apenas dinheiro parado. É a parte da estratégia que permite atravessar meses ruins sem vender bons ativos na hora errada.

Segundo: renda fixa ainda tem papel relevante, mas exige critério. Juros altos não significam que qualquer crédito privado é bom. Em um ambiente de risco fiscal, juros elevados e estresse de mercado, a qualidade do ativo, garantia, liquidez e diversificação importam mais do que uma taxa bonita.

Terceiro: bolsa brasileira pode estar descontada, mas o desconto existe por um motivo. Quem investe no Brasil precisa aceitar volatilidade política, fiscal e de fluxo. O erro não é ter Brasil na carteira. O erro é ter Brasil demais sem saber qual risco está comprando.

Quarto: exterior não é luxo. É ferramenta de diversificação patrimonial. Em um mês em que o S&P 500 subiu e o Ibovespa caiu forte, ficou claro que a diversificação internacional não serve só para buscar retorno. Serve para reduzir dependência de um único país, uma única moeda e um único ciclo político.

Quinto: a carteira precisa conversar com a vida do cliente. Bons investidores não investem em planilhas. Investem para proteger liberdade, tempo, sucessão, projetos, fluxo de caixa e tranquilidade.

O investidor que atravessa melhor esse ambiente não é o que tenta adivinhar o próximo movimento do petróleo, do dólar ou da bolsa. É o que tem método para não precisar improvisar.

Por isso, para o próximo mês, continuamos com uma visão mais construtiva para a renda fixa local, principalmente prefixados e títulos atrelados ao IPCA. Além disso, mantivemos a cautela em relação ao crédito privado, diminuindo a exposição na carteira, devido à elevação das projeções de juros e o aumento da volatilidade no país.

Em renda variável local, continuamos com alocação neutra em bolsa, que entendemos ser um bom ponto de entrada, ainda que seja esperada bastante volatilidade nos próximos meses. Ainda assim, preferimos empresas com mais caixa e menos dívida de longo prazo.

No exterior, mantivemos a alocação descontada em S&P 500, uma vez que novos recordes históricos deixam a bolsa americana em patamares bastante elevados e os dados de atividade econômica ainda fortes aliado com a falta de resolução da Guerra com o Irã, diminuem espaço para novos cortes de juros.

Por fim, ainda com a recente desvalorização do real ante o dólar, preferimos posições com proteção cambial para nos aproveitar do diferencial de juros.

Nesse ambiente em que juros, inflação, petróleo, fiscal e eleições podem mudar rapidamente a percepção de risco, a função de uma estratégia patrimonial não é eliminar a incerteza. É impedir que decisões importantes dependam do improviso.

Mais do que acompanhar o mercado, o investidor precisa entender se sua estratégia ainda está de pé.

Caso faça sentido revisar se sua carteira ainda conversa com seus objetivos, a Ascenda pode ajudar nessa leitura.

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Thiago Coutinho, CFP®
Head Ascenda Sports