
Calma, Riobaldo. Chegaremos lá.
Em Grande Sertão Veredas, Guimarães Rosa colocou Riobaldo, seu jagunço-narrador, diante de uma travessia impossível: o sertão, com toda sua violência, sua beleza e sua indiferença ao sofrimento humano. Nesta jornada aprendemos junto com Riobaldo a ler o sertão, seus sinais, seus enganos, seus ritmos. E seguir em frente.
Abril de 2026 foi um mês de sertão. Não o sertão de Minas, mas um sertão global. Cheia de desvios, lembranças, reflexões filosóficas, dúvidas religiosas, episódios de violência, amor, medo e culpa. Sem NENHUMA linearidade simples.
Em fevereiro, os Estados Unidos e Israel lançaram ataques contra o Irã. O Estreito de Ormuz, uma a garganta de 50km por onde passa cerca de 25% de todo petróleo marítimo mundial e 20% do gás natural liquefeito, foi fechado. Não é exagero dizer que foi o maior choque de oferta de energia da história do mercado de petróleo. A Agência Internacional de Energia descreveu o episódio exatamente com essas palavras: o maior distúrbio de fornecimento em toda a história global do petróleo.
O barril do Petróleo Brent, que iniciou o ano em torno de US$ 70, chegou próximo de US$ 150 em picos físicos de março. Os mercados de produtos refinados atingiram recordes históricos. A fertilização do solo (atividade que alimenta literalmente o planeta) foi atingida. Um terço do comércio global de fertilizantes passa por lá. Isso fez o FMI revisar o crescimento global para 3,1% em 2026, abaixo dos 3,4% que projetava antes do conflito, e colocou na mesa um cenário pessimista de 2,5% caso as hostilidades se prolonguem. A inflação global foi revisada para 4,4%.
Um cessar-fogo temporário foi anunciado em abril. Ainda que os mercados tenham respirado, o Estreito ainda não voltou à normalidade. As negociações quase que “jagunescas” entre Irã e Estados Unidos seguem ambíguas, angustiantes e irresolúveis.
No front monetário, o Federal Reserve manteve os juros entre 3,5% e 3,75% em 29 de abril, a terceira reunião consecutiva sem movimento. A decisão foi marcada por divisão interna incomum: quatro membros divergiram, o maior número desde outubro de 1992. Jerome Powell fez o que provavelmente foi sua última coletiva como chairman; Kevin Warsh assume o comando em meados de maio. O mercado precifica hoje praticamente nenhum corte de juros até 2027.
E as tarifas? A Suprema Corte americana derrubou as tarifas de emergência de Trump ainda no primeiro trimestre. Mais de 330 mil importadores iniciaram o processo de reembolso de US$ 166 bilhões. O comércio global, surpreendentemente, segue crescendo. Com rotas novas, parceiros novos e velocidade nova. O mundo se reconfigura sem pedir licença.
Enquanto o mundo enfrentava o pior choque energético de sua história moderna, o Brasil, exportador líquido de petróleo, grãos e proteína animal, ocupava uma posição estruturalmente diferente da maioria dos países. O Ibovespa renovava recordes acima de 198 mil pontos no início de abril. O dólar recuava para abaixo de R$ 5. O fluxo de capital estrangeiro, que vínhamos apontando há meses como força motriz da bolsa brasileira, continuou chegando. Dentro dos mercados emergentes, o Brasil funcionou como porto seguro regional. Não por acaso, mas porque nossas características estruturais fazem sentido exatamente no tipo de cenário que vivemos.
O acordo Mercosul-União Europeia, assinado em definitivo em janeiro deste ano após mais de 25 anos de negociações, criou o maior bloco de livre-comércio por população do mundo: 720 milhões de pessoas. O Brasil está no centro geográfico e político desse arranjo. Esse dado segue sendo subestimado pela narrativa de mercado.
Mas o sertão brasileiro tem suas próprias pedras.
Mesmo com o corte da Selic para 14,5% em 29 de abril, segundo corte consecutivo de 0,25 ponto percentual, unânime. O Banco Central foi honesto no comunicado: a inflação se afasta da meta. O Focus de meados de abril já projetava IPCA de 4,80% para 2026, acima do teto de 4,5%. O fiscal segue sendo um estrondo de bacamarte que não some: a dívida bruta cresce, os gastos obrigatórios expandem-se automaticamente, e o governo chega ao último ano de mandato com margem estreita e apetite eleitoral crescente.
E outubro está chegando. As eleições presidenciais de 2026 entram em fase de aquecimento acelerado. Lula e Flávio Bolsonaro aparecem tecnicamente empatados nas pesquisas mais recentes. O escândalo de fraudes no INSS, do Banco Master, entre outros, seguem com desdobramentos ativos no STF com novas delações em abril e maio. Isso recoloca (ou mantém, né?) o tema da corrupção no centro do debate eleitoral.
Quando os clientes da Ascenda olham para seus portfólios, não estão olhando para produtos financeiros. Estão olhando para os objetivos que deram sentido a cada real aplicado: a casa, a aposentadoria, a educação dos filhos, a independência que torna a vida mais livre. Esse é nosso princípio: gerimos patrimônio em direção a objetivos concretos de pessoas concretas, não em perseguição pura e abstrata de rentabilidade.
Esse princípio tem uma consequência direta nos momentos de máximo ruído (como agora, por exemplo): o plano não muda por causa do noticiário. Riobaldo não abandona a travessia porque o sertão ficou mais difícil. Ele ajustou o passo, reforçou sua coragem e determinação, aguçou seus sentidos, buscou ler o terreno novamente e continuou seguindo.
Há evidências robustas de que o grande destruidor de retorno de longo prazo não é a má estratégia. É o comportamento: o resgate na baixa, a euforia na alta, a decisão emocional tomada às três da manhã lendo o celular com o noticiário em chamas. Proteger o cliente desse comportamento é, literalmente, o principal alfa que um gestor pode gerar. E não é pouca coisa.
Um dos meus objetivos aqui é prestar contas. Já tem algum tempo, nossa leitura era de que o dólar estava em patamar historicamente elevado e que o fluxo estrangeiro para o mercado brasileiro estava sendo subestimado pelo mercado. Isso nos levou, nos perfis adequados, a colocar uma proteção cambial nas posições de bolsa americana (para evitar perder rentabilidade com a queda do dólar) e aumentar a alocação em renda variável doméstica.
Esse movimento, que fazíamos enquanto vozes do mercado ainda recomendavam comprar dólar com viés de alta infinita, resultou em alocações que capturaram parte da apreciação do real e da alta da bolsa local em abril.
O ouro, outro ativo que começou a chamar atenção dos influencers, segue em carteira, mantendo uma reserva de estabilidade em ambientes de energia cara, geopolítica instável e dólar em transição. Uma dose pequena, como dissemos em março, cumpre seu papel sem dominar o portfólio.
A renda fixa permanece relevante, com preferência por vértices mais curtos nos prefixados. A Selic em 14,5% ainda remunera bem quem quer proteger capital sem abrir mão de liquidez. O crédito privado segue menos atraente em spread, e nossa posição reflete isso.
Cinco variáveis que definirão o sertão dos próximos trimestres:
Ormuz. Se o Estreito retornar à normalidade até meados do ano, o choque inflacionário global arrefece. Se não, a dinâmica de juros globais muda de direção. A isto estamos atentos.
O novo Fed. Kevin Warsh assume com histórico de postura mais hawkish. A transição de liderança, num momento de inflação elevada e mercado de trabalho estável, pode alterar a comunicação do banco central americano antes de alterar sua política. Comunicação do Fed move mercados tanto quanto a política em si. A isto também estamos atentos.
O fiscal brasileiro. O governo chega ao ano eleitoral com incentivo claro para expandir gastos. O arcabouço fiscal tem espaço estreito. Qualquer sinal de deterioração além do esperado, em especial no câmbio ou na curva longa de juros, seria o nosso primeiro alerta.
Eleições de outubro. Ainda cedo para cenários, mas não para monitoramento. O escândalo do INSS tornou o debate eleitoral mais imprevisível. Estamos de olho.
A resiliência do comércio global. O dado surpreendente de abril foi que o comércio mundial segue crescendo, mesmo com tarifas, mesmo com guerra, mesmo com cadeias sendo reconfiguradas. Isso importa para o Brasil como exportador.
Calma, Riobaldo.
O sertão de Guimarães Rosa não tem fim. Ele se transforma, muda de forma, apresenta novas veredas e novos obstáculos. O que Riobaldo aprende é que não dá pra eliminar o perigo, mas que o mais importante é não se perder dentro dele.
Abril foi o mês em que o mundo lembrou, mais uma vez, que os eventos de cauda existem. Que um estreito de 54 quilômetros de largura pode parar o fluxo de energia de uma civilização inteira. Que incerteza não é exceção. É a condição permanente do jogo.
Nosso trabalho é garantir que essa condição não defina o seu destino. Que os seus objetivos cheguem intactos ao outro lado da travessia, independente do estado do sertão.
Seguimos atentos. Seguimos aqui.
Ascenda Wealth — Maio de 2026
As informações contidas nesta carta têm caráter exclusivamente informativo e não constituem oferta, recomendação ou aconselhamento de investimento. Investimentos envolvem riscos e rentabilidade passada não é garantia de retorno futuro.